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52 números no ano



D I S C U R S O

 

O símbolo da globalização neoliberal recebeu um golpe colossal
Discurso pronunciado pelo Presidente da República de Cuba, Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz, na Faculdade de Direito. Buenos Aires, Argentina, 26 de maio de 2003.

 Queridos irmãos estudantes, trabalhadores e, estou para dizer, compatriotas argentinos (Aplausos).

Eu já vivi alguns anos, mas nunca tinha imaginado um ato tão impressionante e tão incrivelmente emocionante como este (Aplausos e exclamações).

Quero informar-lhes que, neste mesmo momento, milhões de cubanos estarão também assistindo a este espetáculo (Aplausos e exclamações de: "Cuba, Cuba, Cuba, o povo te saúda!"). Em nome de nosso povo, agradeço infinitamente, porque é com a força que vem das idéias, que vem da verdade e que vem de uma causa justa que os povos se tornam invencíveis (Aplausos).

Tínhamos pensado um ato, ou tinham pensado, conforme me explicaram os estudantes e as autoridades universitárias, uma atividade nesta escola de Direito, um programa modesto. Começaria às sete da noite, e participariam alguns estudantes sentados numa sala e, se acaso viessem mais, teriam uma tela para que pudessem assistir ao ato.

Eu poderia fazer uma crítica – não a vocês – a nossos companheiros e dizer-lhes: "Vocês subestimaram o povo argentino" (Aplausos). Começaram a chegar notícias de que o salão estava lotado, que havia o dobro dos que podiam sentar-se ali, e que nas laterais também já não cabiam, e que o corredor estava repleto e que a escadaria estava lotando, e diziam que eram mil, dois mil, três mil. Em determinado momento, as emissoras de televisão também já falavam e explicavam o que estava acontecendo aqui, e, de repente, vejo algumas imagens – temos certo hábito de calcular o número de pessoas que há numa concentração – e isto parecia a Praça da Revolução em Cuba (Aplausos).

Todas as comunicações e vias de acesso interrompidas; por sorte, existem esses aparelhinhos, que tanto incomodam e tanto ruído fazem – refiro-me aos celulares –, mas que em momentos como esse servem para comunicar-se e informar-se sobre a situação.

Nosso embaixador, que é parte do grupo de responsáveis pela subestimação (Risos) – sei que vocês vão defendê-lo, porque tem um grande carinho pelo povo argentino (Exclamações) –, comunicava-se com sua família na sala da faculdade onde devia realizar-se o ato – havia até umas crianças ali, eles pensavam que este seria o mais pacífico dos atos – e é mesmo, não é? –, não imaginavam a capacidade de se organizar da multidão; mas não podia se mexer, todo o mundo estava isolado, comunicando-se somente pelos celulares. Não tinha entrada por nenhum lado, já tinham declarado que era impossível entrar, e eu não me resignava com a idéia de descumprir meu compromisso, de que, por circunstâncias físicas, obstrução pela multidão, não pudesse ter a honra e o orgulho de cumprimentá-los.

Já se havia declarado que era impossível, e realmente insisti em que nada era impossível (Aplausos), que era um problema que tinha de ser resolvido, que não podia aceitar a idéia de ficar ali esperando notícias. Durante toda a vida, sempre tive o hábito de mover-me, ir para onde haja qualquer dificuldade, e não podia adaptar-me à idéia de tomar aquele avião, na hora que tenha de tomar, sem vir antes a esta universidade.

É claro que eu sou um visitante e, antes de tudo, devo respeito à lei, à ordem; não tenho o direito de fazer absolutamente nada que possa violar minimamente um regulamento ou uma ordem de suas autoridades.

É preciso dizer que as autoridades realmente cooperaram ao máximo em seu desejo de encontrar uma solução.

Continuavam comunicando-se da escola de Direito e diziam: "Ninguém se mexe da sala". Avançavam um pouquinho nas laterais, em um momento alguma coisa se rompe, em algum lugar – parece que vamos ter de assumir também, de compartilhar com alguém, ou pagarmos nós mesmos os danos que possam derivar-se, uma janela quebrada, alguma brecha aberta por esta tropa patriótica e revolucionária de argentinos (Aplausos).

Então recorremos a um membro jovem de nossa delegação, o Ministro de Relações Exteriores, que vocês viram e escutaram, e eu lhe disse: "Você tem de ir lá, entre por onde possa, fale com os que estão dentro daquela sala e explique a situação real, objetiva e como poderíamos fazer para não realizar o ato ali", porque havia um justificado temor de que, se o ato ocorresse ali, com os telões lá, entrassem de novo alguns que tinham saído voluntariamente, tinha de colocar a necessidade real de mover-se para a escadaria e fazer o ato naquele lugar.

Ficamos esperando impacientes, escutamos nosso enviado por dois meios, pela televisão, já que algumas redes estavam transmitindo suas palavras, e por telefone celular, e vimos quando ele tentava persuadir os que estavam dentro da sala a que se movessem para cá.

Mais uma vez, provou-se a capacidade dos povos de compreender, de cooperar, de reagir, porque após poucos minutos me diz: "Já estão se movendo para a escadaria".

Mas havia outro obstáculo a vencer, que eram as câmaras de televisão e os microfones (Exclamações). Atenção, não briguem com as câmaras agora, deixem para amanhã, se quiserem (Dizem-lhe algo). Eu sei, eu sei, eu estive escutando, realmente houve interesse em informar o que estava acontecendo, de modo que não tenho queixas; mas era preciso instalá-las, ou só vocês saberiam o que se está dizendo aqui.

Por exemplo, sem as câmaras, sem os meios técnicos, nosso povo não estaria vendo o que está acontecendo neste momento, e era isso que estava atrasando por uma hora. Vocês sabem o que é uma hora de impaciência? Vocês e nós vivenciamos essa longa, interminável e infinita hora de impaciência, porque tinha de colocar isso, os microfones e os alto-falantes, os equipamentos e instalações da imprensa, porque tudo estava ajustado para o ato anterior, e a verdade é que conseguiram fazê-lo em tempo recorde.

Perguntamos, eram 20h 40min, e nos disseram: "Está tudo pronto, é conveniente que venham rápido, porque está frio"; mas, por outro lado, não há frio que não possa ser superado pelo calor de vocês (Aplausos).

Bom, puseram-me isto, que realmente não necessito, vou renunciar a ele, porque me dá vergonha pôr isso aqui (Tira o casaco).

Saímos rapidamente para cá, a fim de chegar mais ou menos na hora que tinha sido calculada; mas foi como um milagre a proeza organizativa realizada pela massa (Aplausos). Nunca esquecerei o que vocês fizeram esta noite, permitindo-nos partir felizes e eternamente agradecidos.

BUENOS AIRES ESTÁ ENVIANDO UMA MENSAGEM ÀQUELES QUE SONHAM COM BOMBARDEAR NOSSA PÁTRIA

Alguém poderia pensar que é por vaidade, pelas imensas honras que vocês nos concederam. Não, não é nisso que estou pensando. Quando falo de gratidão eterna, é porque este povo de Buenos Aires está enviando uma mensagem àqueles que sonham com bombardear nossa pátria, nossas cidades (Aplausos e exclamações de: "Cuba, Cuba, Cuba, o povo te saúda!" "Bush, fascista, você é o terrorista!"), àqueles que agora sonham com destruir não apenas a Revolução, destruir o povo que foi portador dessa Revolução e que foi capaz de resistir a mais de 40 anos de bloqueios, de agressões e de ameaças contra nosso país (Aplausos).

Em circunstâncias assim, não se podem calcular somente as crianças mortas, ou as mães que morreram, ou os anciãos que morreram, ou os jovens e adultos que tenham morrido. Há ocasiões em que os sobreviventes ficam tão mutilados e tão destroçados, que a pessoa se pergunta se, nessas circunstâncias, não prefeririam cem vezes mais morrer, que continuar vivendo daquela forma, como conseqüência de algo que se realizou se nenhuma razão, lei ou justificativa, que não fosse a violação das normas internacionais, a violação das leis que pensávamos que regiam este mundo; embora muitos de nós suspeitássemos que este era um mundo onde o que menos se respeitava era a lei, e onde se estava estabelecendo o princípio da força como única justificativa para cometer qualquer tipo de crimes, para submeter a nossos povos, para conquistar nossos recursos naturais, para impor-nos o que vocês diziam, uma tirania nazi-fascista mundial (Vaias).

Não é exagero, nem uso excessivo de palavras, de nossa parte, quando um dia escutamos dizer que 60 países ou mais podiam ser alvo de ataques de surpresa e preventivos; ninguém na história, nenhum império, nunca havia feito semelhante ameaça (Vaias).

Quando se falou de estar preparados para lançar qualquer ataque a qualquer obscuro rincão do mundo, eu nunca tinha ouvido essas palavras.

Quando se disse que qualquer arma podia ser utilizada, tanto podiam ser armas nucleares, como armas químicas, como armas biológicas, além das supersofisticadas armas que já não têm nada de convencional, porque são capazes de causar todo tipo de destruição, pensávamos: Que direito tem alguém de ameaçar dessa maneira aos povos?

Pergunto-me se aqui também, neste ato, porque não há muita luz, se não temos de acender muitas lâmpadas mais, para que não sejamos um obscuro rincão do mundo, a atacar de surpresa e preventivamente (Aplausos).

Claro que esta praça e esta escadaria que vemos aqui não é um obscuro rincão, é um rincão cheio de luz, cheio de milhões de luzes. Esta praça e esta escadaria são como um sol, como esse sol que vimos ao chegar aqui, ou que vimos esta manhã, quando visitamos a estátua de Martí para colocar ali uma oferenda de flores (Aplausos). (Do público lhe dizem algo). Sim, mas na de San Martín era um pouquinho mais cedo, mas o sol já estava bem forte, e pensei: Caramba! nosso sol é forte, é, sobretudo, muito quente, e então me ocorreu que este sol não é tão quente, ou seja, o clima é frio, mas o sol estava super-resplandecente.

Via-se um sol bem forte; porque aqui há dois sóis neste momento: o sol que vimos esta manhã e que vimos quando chegamos a este país, e o sol que estamos vendo aqui, nesta escadaria e nesta praça. São as idéias, são as idéias as que iluminam o mundo (Aplausos), são as idéias, e quando falo de idéias, penso somente em idéias justas, aquelas que podem trazer a paz ao mundo e as que podem eliminar os graves perigos de guerra, ou as que podem eliminar a violência. Por isso, falamos da batalha de idéias.

Penso – porque sou otimista – que este mundo pode se salvar, apesar dos erros cometidos, apesar dos poderios imensos e unilaterais que se criaram, porque creio na proeminência das idéias sobre a força (Aplausos e exclamações), e é isso que estamos vendo aqui.

Esta noite eu não tinha intenção de fazer um longo discurso, na verdade me sentia no dever de ser cuidadoso com minhas palavras. Claro, pensava falar principalmente de nosso país e do mundo, e é o que estou fazendo, mas não posso fazê-lo sem ver vocês aqui, sem vê-los participando deste ato.

Na verdade, minha idéia – já que me fizeram sonhar também com um salão tranqüilinho e sentadinhos aí –, eu pensava numa questão, que é a seguinte: "De quê devo falar aos argentinos?" fazer um discursos, em qualquer lugar, é sempre complexo, não é fácil, é preciso evitar dizer uma palavra que possa ferir a alguém ou que pareça uma ingerência – e não creio que tenho pronunciado nenhuma que possa parecer a menor ingerência nos problemas internos do hospitaleiro país em que me encontro –; mas pensava: "De que devo falar?" E me colocava uma questão: Os oradores costumam impor o tema aos que os escutam, pensam em falar de tal coisa, e de mais outra, e então eu tive uma idéia: não colocar nenhum tema, mas perguntar aos estudantes, que eu imaginava sentadinhos ali, que me dissessem que temas lhes interessavam: Perguntem-me de qualquer tema que lhes interesse, sejam vocês a impor-me o tema, e não seja eu a dizer-lhes o que queira; parecia-me mais democrático e mais justo.

Isso era o que eu pensava, antes de ocorrer este terremoto, o maremoto, o furacão que ocorreu ao redor desta universidade, ao anoitecer. Ao chegar aqui, avaliei se essa técnica seria possível, e já não era possível. Apesar disso, creio que alguém disse por aí... ouvi uma voz que me disse: Fale-me de alguma coisa (Dizem-lhe que do Che); a vida do Che (Aplausos).

Não poderia ser extenso, não teria sentido, nestas circunstâncias, mas posso dizer algumas coisas. Perguntaram-me do Che (Exclamações), falei dele hoje de manhã, diante da estátua de San Martín, porque sempre me lembro dele como uma das personalidades mais extraordinárias que conheci.

O Che não se uniu a nossa tropa como soldado, era médico. Estava no México casualmente, tinha estado antes na Guatemala, tinha percorrido muitos lugares da América; tinha estado em minas, onde o trabalho é mais duro; tinha estado, inclusive, no Amazonas, num leprosário, trabalhando lá como médico.

Mas eu vou dizer-lhes uma das características do Che, uma das que eu mais apreciava, entre as muitas que apreciava muito: todos os fins de semana, ele tentava escalar o Popocatépetl, um vulcão que está nas imediações da capital. Preparava seu equipamento – a montanha é alta, é de neves eternas –, iniciava a subida, fazia um enorme esforço, e não chegava no alto. A asma obstaculizava suas tentativas. Na semana seguinte, tentava de novo escalar o "Popo" – como ele dizia – e não chegava; mas voltava a tentar subir de novo, e teria passado a vida inteira tentando escalar o Popocatépetl, ainda que nunca atingisse aquele cume (Aplausos e exclamações). A idéia da vontade, da fortaleza espiritual, de sua constância, é uma dessas características.

Qual era a outra? A outra era que, quando ainda éramos um grupo muito pequeno, cada vez que fazia falta um voluntário para uma determinada tarefa, o primeiro que se apresentava era sempre o Che (Aplausos).

UM DOS HOMENS MAIS NOBRES, MAIS EXTRAORDINÁRIOS E MAIS DESINTERESSADOS QUE CONHECI

Como médico, ele ficava com os doentes, porque em determinadas circunstâncias da natureza, montanhas com florestas, e perseguidos a partir de muitas direções diferentes, a força que poderíamos chamar principal era a que tinha de mover-se, deixar um rastro bem visível, para que, em alguma zona mais próxima, pudesse permanecer o médico com os que estava cuidando. Houve um tempo em que o único médico era ele, até que outros médicos se aproximaram, e ali estava.

Já que vocês estão me pedindo histórias, eu me lembro de uma ação que foi sumamente arriscada para todos, simplesmente porque tinham chegado, ao lugar onde estávamos, nas montanhas, as notícias de um desembarque realizado no norte da província. Lembramo-nos de nossas peripécias, de nossos sofrimentos nos primeiros dias e, como ato de solidariedade a favor dos que tinham desembarcado, decidimos realizar uma ação bem audaz, que não era correta, do ponto de vista militar, e era simplesmente atacar uma unidade que estava bem entrincheirada na beira do mar.

Não vou dar mais dados. Como resultado daquele combate, que durou três horas, e tivemos muita sorte, porque tínhamos conseguido neutralizar as comunicações, e depois de três horas, quando terminou aquele combate, em que ele, como sempre, teve uma atuação destacada, estavam mortos ou feridos um terço dos combatentes que participaram daquela ação, coisa pouco usual; então ele, como médico, atendeu aos adversários feridos – havia adversários que estavam vivos e não estavam feridos, mas havia um alto número de feridos, e ele os atendeu – e atendeu aos companheiros que estavam feridos (Aplausos).

Vocês não imaginam a sensibilidade daquele argentino! (Aplausos) E me vem algo à mente: um companheiro, cuja ferida era mortal, e ele sabia disso; naquele momento, o lugar tinha de ser abandonado rapidamente, porque logo, não se sabia quando, apareceriam os aviões, milagrosamente não tinham aparecido durante aquele combate, porque era o primeiro que aparecia, aos 20 minutos; mas creio que tivemos a sorte de destruir as comunicações, com alguns disparos certeiros. Dispusemos desse tempo, mas era preciso atender os feridos, retirar-se rapidamente. E eu não posso esquecer, foi ele que me contou, de um companheiro que ia morrer, inexoravelmente... Não podia ser removido; há feridos mais graves, que não podem ser removidos, aí tem de confiar, já que você atendeu aos adversários, fez uma certa quantidade de prisioneiros, prisioneiros que nós sempre respeitamos; não houve jamais um único caso de que um prisioneiro em combate fosse maltratado ou executado (Aplausos). Nós, inclusive, às vezes lhes entregávamos nossos medicamentos, que eram bem escassos.

Essa política, sinceramente, ajudou-nos muito para o êxito na guerra, porque, em qualquer luta, você deve conquistar o respeito do adversário (Aplausos). Em qualquer luta – volto a repetir –, de uma forma ou de outra, o comportamento dos que defendem uma boa causa deve ser o de conquistar o respeito do adversário.

Naquela ocasião, tivemos de deixar uns tantos companheiros feridos que não podiam ser evacuados, entre eles, alguns em estado muito grave. Mas o que me impactou foi quando me contou, com muita dor, recordando aquele momento em que, sabendo que não havia salvação possível, ele tinha se inclinado e dado um beijo na testa daquele companheiro, que, ferido ali, sabia que inexoravelmente morreria (Aplausos).

São algumas das coisas que menciono do Che, como homem, como ser humano extraordinário.

Era, também, um homem de elevada cultura, era um homem de grande inteligência; já mencionei seu ímpeto, sua vontade. Qualquer tarefa que lhe fosse designada, depois do triunfo da Revolução, era capaz de aceitá-la. Foi diretor do Banco Nacional de Cuba, onde fazia falta um revolucionário naquele momento, e em qualquer outro, aliás; mas a Revolução acabava de triunfar, e os recursos com que contava eram muito poucos, porque tinham roubado suas reservas.

Os inimigos faziam piada, sempre fazem, nós também fazemos; mas a piada, que tinha uma intenção política, referia-se a que, certo dia, eu tinha dito: É preciso um economista. Mas então se confundiram e pensaram que eu dizia que era preciso um comunista, e por isso é que tinha ido o Che (Aplausos). Pois o Che era um revolucionário, era um comunista e era um excelente economista (Aplausos); porque ser um excelente economista depende da idéia do que queira fazer quem dirige um setor da economia do país, e quem dirige o Banco nacional de Cuba, por isso, seu duplo caráter, de comunista e economista; não é porque tivesse um título, mas porque tinha lido muito e observava muito.

Che foi o promotor do trabalho voluntário em nosso país, porque ia todos os domingos, um dia a trabalhar na agricultura, outro dia a experimentar uma máquina, outro dia a construir. Deixou-nos a herança daquela prática que, com sem exemplo, conquistou a simpatia ou a adesão, ou a prática de milhões de nossos compatriotas.

São muitas as lembranças que nos deixou, e é por isso que digo que é um dos homens mais nobres, mais extraordinários e mais desinteressados que conheci, o que não teria importância, se não acreditasse que homens como ele existem, aos milhões e milhões e milhões, nas massas (Aplausos).

Os homens de que se destacam de maneira singular não poderiam fazer nada, se muitos milhões, iguais a ele, não tivessem o embrião, ou não tivessem a capacidade de adquirir essas qualidades. Por isso, nossa Revolução se interessou tanto por lutar contra o analfabetismo, por desenvolver a educação (Aplausos).

Se antes dizia que as idéias eram mais poderosas que as armas, a educação é o instrumento por excelência, para que esse ser vivo que é o homem, regido poderosamente por instintos ou leis naturais, que evolucionou, como demonstrou Darwin, e hoje ninguém nega... Refiro-me à teoria da evolução, e digo que ninguém o nega, porque me lembro do momento em que o Papa João Paulo II declarou que a teoria da evolução não era inconciliável com a doutrina da criação. E realmente tenho uma grande apreço por ações como essa, porque acabou com uma contradição entre uma teoria científica e uma crença religiosa. Mas esse homem pode ser como um animalzinho na selva, se o colocam na selva; tem inteligência, sabe-se quantos gramas há numa cabeça humana e se sabe, inclusive, que é o único ser vivente cujo cérebro continua crescendo durante dois anos e meio depois que nasce, vocês sabem disso, os estudantes universitários, devem ter lido. Isso tem uma influência tremenda no desenvolvimento da inteligência.

Criança que não se alimente com todos os elementos adequados até cumprir os dois anos e meio, chega aos seis anos, à pré-escola ou à escola, com a inteligência diminuída, em relação às crianças que se alimentam de uma maneira adequada (Aplausos). E quero dizer que uma das coisas mais necessárias, se queremos igualdade, é, pelo menos, o direito a chegar aos seis anos com a capacidade de inteligência com que nasça uma criança, e sabemos que aqueles – que no mundo são centenas de milhões – que não se alimentam adequadamente nessa idade, chegam à idade escolar – se houvesse escolas, se houvesse professores capazes de ensiná-los – com menos possibilidades de aprender; embora também possa ocorrer que, alimentando-se adequadamente nessa etapa, depois não tenham nem escolas, nem professores (Aplausos).

Mas o que acontece com os setores mais pobres da Terra, que estão concentrados, fundamentalmente, nos países do Terceiro Mundo, a que pertencem quatro quintos da humanidade? É que nessas regiões se concentram os pobres, os famintos, os que não podem atingir esse nível de capacidade instalada, não de capacidade desenvolvida, os que nem sequer têm escolas.

Se dizem a vocês que há 860 milhões de analfabetos adultos no mundo, imediatamente lhes explicam como quase 90% desses 860 milhões de analfabetos vivem no Terceiro Mundo. É preciso acrescentar que há analfabetos em países muito desenvolvidos, nesse grande vizinho próximo de nossa pátria, há milhões de analfabetos (Assobios e vaias), de analfabetos absolutos; mas há dezenas de milhões de analfabetos funcionais. E ninguém veja isso... (Exclamações de: "Um médico"). Que dizem? Um médico? O que estão dizendo do médico? (Dizem-lhe algo)

Eu disse dezenas, realmente são centenas. Bem, não, nos países desenvolvidos não, estou falando do Terceiro Mundo.

(Dizem-lhe que estão pedindo um médico para uma pessoa do público.) Um médico? Há um médico aqui? Onde precisam de um médico? Bem, passem o companheiro, rápido. Mandamos um médico, vocês verão como chega rápido.

Eu lhes falava – e estou me estendo mais do que pretendia – de dois problemas muito importantes, que estão muito associados, e que se chamam educação e saúde. Bem, falávamos de um médico argentino que se converteu em soldado sem deixar de ser médico nem um minuto, foi o que nos levou a explicar essas coisas, e depois lhes dizia que é a educação que converte o animalzinho em ser humano. Não se esqueçam disso (Aplausos), é a educação que é capaz de fazer que ele ultrapasse os instintos que vêm da natureza. Digo mais, é a educação que poderia esvaziar as prisões onde estão aqueles que não receberam educação, que não se alimentaram adequadamente, porque até em nossa pátria, e demoramos a descobrir, por muitas leis que se façam, por muitas escolas que se construam, muitos professores que se formem, sempre haverá, por uma ou outra razão, mais a fazer pela educação dos homens. Em nossa sociedade, como há centenas de milhares de profissionais universitários e intelectuais, a influência do núcleo familiar é decisiva.

Quando você vai a uma prisão e pesquisa os jovens entre 20 e 30 anos que estão presos, descobre que procedem das camadas mais humildes e mais pobres da população (Aplausos), procedem do que poderíamos chamar de áreas marginais. Inversamente, quando se pesquisa a composição social de escolas que são muito concorridas e em que se entra por expediente e por notas, é ao contrário, a imensa maioria é de filhos de pais intelectuais ou artistas.

Observem que não estou falando de uma diferença de classes sob o ponto de vista econômico; o problema da construção de uma sociedade nova é muito mais difícil do que pode parecer, porque são muitas coisas que se vão descobrindo pelo caminho. Se você começa lutando contra um analfabetismo de 30%, e 90% entre analfabetismo absoluto e funcional, concentra sua atenção nessas tarefas, e quando já passaram os anos, e quando realiza estudos mais profundos da sociedade, é que percebe a influência que tem a educação.

Posso dizer-lhes que nos setores mais pobres, nas áreas marginais, onde é mais freqüente a dissolução do núcleo familiar, essa dissolução tem uma grande influência. Por exemplo, você pode encontrar que 70% procedem de núcleos dissolvidos, e que, inclusive, até 19% não vive com o pai ou a mãe, mas com algum familiar que cuida dele, e quando esse mesmo fenômeno ocorre num núcleo de intelectuais, não se observa o mesmo efeito naquele filho, embora tenha ocorrido a dissolução familiar. Em geral, ficam com o pai ou a mãe; em nosso país, por costume, com a mãe, e as mulheres constituem em Cuba 65% da força técnica do país (Aplausos). É como estou lhes dizendo, é um pouquinho mais de 65%, e se observam esses fenômenos. O que pode explicá-lo, senão a educação? Ou seja, que o nível de escolaridade dos pais, ainda que se tenha feito uma Revolução, continua influindo tremendamente nos destino ulterior das crianças.

Também pode acontecer, em determinadas circunstâncias, com os filhos dos setores mais humildes, ou com menos conhecimentos – já não estou falando da situação econômica do núcleo, mas de sua educação –, que essa situação tende a continuar ao longo e dezenas de anos, e pode-se dizer, então – como nós às vezes colocamos, em alguns casos: Essas pessoas que estão fazendo essa tarefa ou a que se oferece tal apoio, seus filhos nunca serão diretores de empresas, gerentes, nem ocuparão posições importantes; esperam-nos, em primeiro lugar, as prisões.

Nós já estudamos isso e umas tantas outras coisas, que agora não é hora de explicar. Menciono apenas para dizer que, sem uma revolução educacional, bem profunda, a injustiça e a desigualdade continuarão prevalecendo, acima da satisfação das necessidades materiais de todos os cidadãos do país (Aplausos).

Em nosso país, garantimos um litro de leite a cada criança, até os sete anos (Aplausos). A partir dessa idade, e devido a nossos recursos, garantimos leite de outro tipo, já que, felizmente, existem possibilidades.

Agora, garantimos esse leite a essa criança, a um custo de menos de um centavo de dólar (Aplausos). Com um dólar que seja enviado por alguém que viva no Norte a um amigo, pode comprar o leite de 104 dias (Aplausos).

Em nosso país, o bloqueio obrigou-nos ao racionamento, esse bloqueio que dura há 44 anos (Assobiam); mas em nosso país não se encontrará uma criança sem escola, não se encontrará uma só criança sem escola. (Aplausos).

Em nosso país, inclusive, as crianças que nascem com algum problema mental – e é algo que estamos estudando em profundidade, causas que originam distintos tipos de retardo mental, se leve, moderado, severo ou profundo, cada um com suas características; felizmente, são mais numerosos os leves e moderados –, neste momento, nós temos o expediente de cada uma, e não somente das crianças, mas das cento e quarenta e tantas mil pessoas, de diferentes idades, que têm algum problema de retardo mental. Todas as crianças que têm algum problema de incapacidade física ou mental, ou cego, ou surdo-mudo; ou, o que é mais terrível, cego e surdo-mudo ao mesmo tempo.

Há tragédias humanas que, para conhecê-las, é preciso pesquisá-las, e nós não as conhecíamos desde o primeiro dia. Foi ao longo da prática, e lutando pela educação, como lutamos, que fomos descobrindo essas coisas.

Têm escolas especiais, há 55.000 crianças matriculadas em escolas especiais.

Temos colocado que não basta que uma criança vá a uma escola especial entre a sexta e a nona série. Temos colocado que, se é uma criança que não pode ir a um nível superior, de nove a doze séries, seja colegial, ou curso técnico, uma escola tecnológica, deve terminar sua nona série ou o tempo que necessite, se necessita um ano ou dois mais, e sair dessa escola preparado para o tipo de trabalho que possa realizar e, além disso, com um emprego (Aplausos).

Não se pode subestimar os jovens que têm esse tipo de problemas, eles têm qualidades para muitas coisas, e já não nos conformamos, não podemos nos conformar, porque seríamos inconscientes, se nos limitássemos a ensinar-lhe o que se pode ensinar a uma criança com esse tipo de limitação, leve ou moderada, que são a maioria.

Todos são atendidos, seja qual for o tipo de incapacidade que tenha. Podemos ter a satisfação de que, apesar desse bloqueio de 44 anos, não há uma única criança com necessidades educativas especiais que não tenha sua escola (Aplausos).

Quero acrescentar um dado, e ninguém deve considerá-lo como vaidade de nosso povo, porque o que sempre digo com relação ao que fizemos pela educação e pela saúde é que sentimos vergonha, à medida que descobrimos novas e novas possibilidades, vergonha de não ter descoberto antes. Ninguém deve pensar que Cuba se jacta do êxito, posso assegurar-lhes algo que nem nós mesmos sabíamos.

Fazíamos comparações pelos dados da UNESCO e das pesquisas feitas sobre os níveis de educação e, em nosso país, os conhecimentos das crianças de quarta e quinta séries, em linguagem e matemáticas, quase duplicam os conhecimentos das crianças do restante da América Latina e também dos Estados Unidos, não pensem que só da América Latina (Aplausos).

Sei que estou lhes falando de um país que tem altos níveis de educação e cultura; sei como é o povo argentino e seus conhecimentos. Nosso país tem hoje níveis mais altos, mas a Argentina está entre os demais países, quatro ou cinco, que se aproximam, embora a uma distância relativamente grande, dos níveis de nosso país; mas nos chamou mais a atenção, quando descobrimos que nossas crianças do ensino fundamental, seus conhecimentos de linguagem e de matemática estão acima dos níveis dos países mais desenvolvidos do mundo (Aplausos).

Ou seja, nosso país ocupa esse lugar hoje, do mesmo modo que o índice de mortalidade infantil em nosso país está abaixo de sete por cada mil nascidos vivos, no primeiro ano de vida – no último ano, foi de 6,5; no anterior, tinha sido de 6,2 –, nós pretendemos baixá-lo. Não sabíamos sequer se, num país tropical, era possível baixar o índice de mortalidade infantil a esses níveis, porque influem muitos fatores: o clima influi, e até o potencial genético de cada população influi; esses fatores, independentemente dos fatores de assistência, fatores alimentícios, etc. Não sabíamos se podíamos baixar de 10, e nos animamos muito quando conseguimos.

Não pensem que é a capital que tem os melhores índices, há províncias inteiras que têm, inclusive, menos de cinco de mortalidade infantil, e esse índice é mais ou menos uniforme. Não ocorre como no país vizinho ao nosso, em que, em alguns lugares, onde vivem os que têm mais recursos, melhor assistência e melhor alimentação, etc., etc., podem ter quatro ou cinco, e em outros, como na própria capital dos Estados Unidos, onde há muita gente pobre e há grupos étnicos, os afro-norte-americanos, que não têm assistência médica adequada, a mortalidade pode ser três, quatro ou cinco vezes mais que a mortalidade infantil de determinados lugares que recebem todas as atenções (Aplausos).

Sabemos o que acontece com os hispânicos e com os afro-norte-americanos e os de outras regiões do mundo, seus índices de mortalidade infantil, seus índices de perspectiva de vida, seus índices de saúde, como também sabemos que há mais de 40 milhões de norte-americanos que não têm assistência médica garantida.

Quando falo dos norte-americanos, jamais falo com ódio, porque nossa Revolução não ensinou a odiar; baseia-se em idéias, e não em fanatismos, não em chauvinismos (Aplausos e exclamações). Tivemos o privilégio de aprender que todos somos irmãos, e nosso povo se educa em sentimentos de amizade e solidariedade, o que qualificamos de sentimentos internacionalistas (Aplausos e exclamações).

Centenas de milhares de nossos compatriotas passaram por essa escola, é por isso que posso dizer que não é tão fácil liquidar a Revolução, que não é tão fácil destruir a vontade desse povo, em virtude de suas idéias, conceitos e sentimentos cultivados, porque tanto as idéias como os sentimentos têm de ser cultivados, partimos dessa verdade; mas a um povo que alcança determinados níveis de conhecimentos, capacidade de compreender os problemas, capacidade de unidade e de disciplina, não é tão fácil eliminar da face da Terra (Aplausos e exclamações). É por isso que, apesar dessas teorias nazi-fascistas, temos a convicção de que um ataque a nosso país custaria, como já lhes disse, um preço muito alto, porque é um povo que jamais se renderá, que jamais deixará de lutar (Aplausos e exclamações), e enquanto exista um só homem ou mulher capaz de combater, esse homem ou essa mulher continuará combatendo.

NOSSO PAÍS TEVE DE APRENDER A DEFENDER-SE

Conhecendo há muitas décadas a esse adversário, nosso país teve de aprender a defender-se. Nosso país não atira bombas contra outros povos, nem manda milhares de aviões para bombardear cidades; nosso país não possui armas nucleares, nem armas químicas, nem armas biológicas (Aplausos e exclamações). As dezenas de milhares de cientistas e médicos com que conta nosso país foram educados na idéia de salvar vidas (Aplausos). Estaria em absoluta contradição com sua concepção colocar um cientista ou um médico a produzir substâncias, bactérias ou vírus capazes de produzir a morte de outros seres humanos.

Não faltaram, inclusive, as denúncias de que Cuba estava fazendo pesquisas sobre armas biológicas. Em nosso país, são feitas pesquisas para curar enfermidades tão duras como a meningite meningocócica, a hepatite, através de vacinas que produz com técnicas de engenharia genética, ou, algo sumamente importante, a busca de vacinas ou fórmulas terapêuticas através da imunologia molecular – desculpem-me por utilizar essa expressão técnica, significa de métodos que atacam diretamente as células malignas –; e tanto podem algumas prever, como outras podem, inclusive, curar, e avançamos por esses caminhos. Esse é o orgulho de nossos médicos e de nossos centros de pesquisa.

Dezenas de milhares de médicos cubanos prestaram serviços internacionalistas, nos lugares mais afastados e inóspitos. Eu disse, um dia, que nós não podíamos, nem realizaríamos jamais ataques preventivos e de surpresa contra nenhum obscuro rincão do mundo; mas que, ao contrário, nosso país era capaz de enviar os médicos que se necessitem aos mais obscuros rincões do mundo (Aplausos e exclamações). Médicos, e não bombas, médicos, e não armas inteligentes, de pontaria certeira, porque, afinal, uma arma que mata traiçoeiramente, não é em absoluto uma arma inteligente (Aplausos e exclamações de: "Olé, olé, olé, Fidel, Fidel!").

Como vêem, minhas palavras a vocês, estudantes, giraram ao redor dessas questões, que são as que constituem, para nós, o maior orgulho da Revolução.

Há quem afirme que em Cuba a Revolução está muito bem e é muito correta em educação – admitem pelo menos isso –, em saúde pública – admitem pelo menos isso –, e que em esporte tem um bom nível de desenvolvimento, e eu sei que vocês são muito amantes do esporte, e esses "olé, olé" que saíram, eu já escutei em certo esporte (Risos), em que vocês foram campeões, compartilhando essas honras com os brasileiros (Exclamações de: "Olé, olé, Fidel, Fidel!"). Mas terão de dizer, e não vai demorar muito, que Cuba avança aceleradamente no terreno da cultura e da arte (Aplausos). E não vamos apenas em busca de uma cultura artística, vamos em busca de uma cultura geral integral.

II PARTE

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