|
Novos ares
em Davos e Porto Alegre
POR
JOAQUÍN ORAMAS
O perigo de
agressão militar dos EUA contra o Iraque e a situação
provocada pela oposição pró-norte-americana na Venezuela
constituem o centro de atenção dos milhares de participantes
do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, Brasil e do Fórum
Econômico Mundial, que com interesses opostos, coincidem na
data: de 23 a 28 de janeiro.
Tanto as dezenas
de milhares de dirigentes de partidos, organizações não
governamentais e de outros setores reunidos na sulista cidade
brasileira, quanto os empresários representantes de grandes
corporações que participam do encontro no centro turístico
das montanhas suíças, examinarão a situação econômica
internacional de um ponto de vista fundamental: Haverá guerra
no Oriente Médio nas próximas semanas? Como enfrentar a
situação que ocasiona o aumento dos preços do petróleo em
face das conseqüências de ameaças da administração de
Bush contra o país árabe, e da campanha de desestabilização
dos opositores ao governo venezuelano?
Davos e Porto
Alegre serão cenários coincidentes, nesta ocasião, em que a
séria crise da economia mundial se agrava perigosamente,
ainda mais ante o derrubamento das Torres Gêmeas.
Os capitalistas
reunidos nas montanhas suíças não poderão ocultar a
realidade depois do colapso da economia argentina, dos
consecutivos onze cortes da taxa de juros da Reserva Federal
dos Estados Unidos e diante da situação alarmante do Japão,
cuja economia está estagnada há vários anos.
Estes não serão
os únicos temas em ambos os encontros, mas os perigos que
significam a guerra e o petróleo são tão graves e
universais, que as conseqüências negativas para nós todos
obrigará a fazer um exame mais profundo deles.
Se os grandes
capitalistas falam em Davos de mercado e de investimentos,
também terão de se referir aos danos e à desconfiança nos
investidores e em outros que também intervém nesses negócios.
Na reunião dos
poderosos, os Estados Unidos reiteram a recusa oficial à redução
de suas reservas estratégicas de petróleo (600 milhões de
barris) frente à crise de fornecimento desse recurso e à
alta dos preços. Contudo, a desconfiança se mantém.
Enquanto isso,
as vozes dos participantes no Foro da cidade brasileira se
levantam exigindo medidas para que milhões de pessoas possam
receber os alimentos necessários.
A fome e a
pobreza, inimigos principais da América Latina e do Caribe, são
atualmente conseqüências de políticas locais erradas,
sucessivas crises econômicas internacionais e obstáculos que
os EUA impõem às exportações agrícolas. Estes fenômenos
constituem as causas principais que provocam pobreza de 65%
dos 516 milhões de habitantes da região, indigência de 38%
e desnutrição de 11%.
Mas, estes
dados, extraídos do Informe da Cúpula Mundial da Alimentação,
efetuada no passado mês de junho, em Roma, excluem o
agravamento da fome na América Latina, região afetada nos últimos
anos por vários fenômenos naturais, terremotos, furacões,
secas e pela corrupção política e administrativa dos
respectivos governos.
Somam-se aos países
que hoje enfrentam situações econômicas graves, o Haiti,
onde a fome afeta 62% da população, a Colômbia e o Peru,
onde a fome abrange uma em cada quatro pessoas, e o México,
onde 40% dos 100 milhões de habitantes sofrem algum grau de
desnutrição.
O continente
latino-americano e caribenho já não é destino prioritário
de ajuda internacional, ao terminar o ano passado, com cinco
anos de baixo crescimento com a queda do Produto Interno Bruto
a 0,1%; com elevada inflação; 9,1% de desemprego e 50% dos
trabalhadores ativos com empregos precários.
Também não
existem projetos sustentáveis regionais nem governamentais
para enfrentar este flagelo, à exceção do Programa Fome
Zero do presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva,
primeira medida do governo após sua posse, em 1º de janeiro
passado.
O plano
anunciado por Lula é completamente novo na América Latina,
pois tem como objetivo não só erradicar a fome no país, mas
também pôr em prática programas sustentáveis visando à
criação de empregos e áreas produtivas para benefício dos
pobres.
A meta do
programa Fome Zero significa conseguir, nos próximos quatro
anos, estabelecer três refeições diárias para 22 milhões
de pessoas atingidas pela fome. Quantidade que, segundo o
independente Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar,
equivale a 26% da população desse país.
Para este
projeto foram traçadas 21 linhas de ação, que combinam políticas
estruturais, como a reforma agrária e a ampliação da previdência
social a trabalhadores informais, com outras medidas específicas
e locais como a distribuição de vales que podem ser trocados
por alimentos, e o aumento do lanche escolar.
O presidente
brasileiro será o único governante que participará dos dois
importantes eventos internacionais que terão lugar em Porto
Alegre e Davos.
No primeiro,
participará da inauguração do Fórum Social, onde se
calcula participem 100 mil pessoas, entre elas, dirigentes
sindicais, representantes de etnias, de organizações não
governamentais e de partidos políticos, entre outros. Em
Porto Alegre, se examinarão assuntos tais como a situação
criada pela pobreza na região bem como os avanços na luta
contra a globalização neoliberal e o desenvolvimento da
consciência em defesa do meio ambiente e contra as campanhas
belicistas que os EUA implementam pretextando a luta contra o
terrorismo, entre outros.
Um ponto
essencial na agenda de Porto Alegre será a situação criada
pela pobreza na região, como expressam diferentes organismos
internacionais, entre eles, o Programa Mundial de Alimentos
(PMA), que afirma que , 72 milhões de latino-americanos e
caribenhos em 2002 viviam na extrema pobreza e sofriam as seqüelas
da fome, situação que piorará neste ano.
Entre os
importantes temas que os experts julgam prioritários para
serem debatidos no Fórum Social, sobressai a ameaça da fome
que paira sobre mais de 200 milhões de habitantes da região,
vulneráveis ao agravamento da economia ou a novos desastres
naturais.
Segundo relatórios
da Cúpula Mundial da Alimentação, a população faminta na
América Central cresceu na última década de 17 para 19% e
no Caribe de 26 para 28%. Aproximadamente 200 crianças
latino-americanas morreram nos últimos 18 meses devido à
falta de alimentos, que afeta mais de 8 milhões de pessoas
nas áreas mais pobres e secas da região.
Contrariamente,
a América Latina e o Caribe concentram 25% da terra cultivável
do planeta; 23% do gado e 30% da reserva de água potável,
segundo especialistas da Organização das Nações Unidas
para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Tais recursos,
através do desenvolvimento sustentável, significam maior
quantidade de alimentos para toda a população da região,
bem como a obtenção de divisas e recursos para o
desenvolvimento de outros setores econômicos, afirma a FAO.
A Argentina, por
exemplo, produz alimentos para 300 milhões de pessoas, 12
vezes a população do país. Contudo, nas comunidades mais
pobres, a fome é crônica e a situação se tornou mais grave
e se alastrou a outros setores sociais após a débâcle de
dezembro de 2001.
O Instituto
Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) indicou que nessa
nação, mais de 52% dos 37 milhões de argentinos são pobres
e 26% indigentes, quer dizer, sem renda mínima para as
despesas de sobrevivência.
Os casos mais
dramáticos enxergam-se na população infantil. Segundo dados
do Indec, de 2001, na Argentina morrem anualmente 11 mil crianças
menores de um ano. Contudo, 6 mil delas poderiam ser salvas,
mas morrem por causa de doenças provocadas pela extrema
pobreza, como a desnutrição e as diarréias.
A situação só
é comparável com as conseqüências de «uma guerra ou um
desastre natural», apesar de o país não ter sofrido nenhum
desses males, afirmou o sociólogo Pablo Vinocur, consultor do
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
A profunda crise
argentina atingiu seu vizinho Uruguai, que, apesar de ser também
produtor por excelência de alimentos, hoje tem sérios
problemas de fome na população infantil, vivendo 60% dela na
pobreza.
Experts
revelaram que organizações não governamentais (ONGs) e
religiosas, encarregadas de centros de alimentação e
subsidiadas por organismos internacionais, aumentaram quatro
vezes nos últimos seis anos nesse país. Daí que afirmem que
em Porto Alegre também se poderão escutar as denúncias das
ONGs da nação que alguns chegaram a denominar a Suíça da
América e que hoje é mais outra vítima do neoliberalismo.
|