F  Ó  R  U  M      S  O  C  I  A  L      M  U  N  D  I  A  L

PORTO ALEGRE 2003  -  BRASIL          Havana. 20 de Janeiro de 2003  

 Outro Mundo é Possível - Otro Mundo es Posible - Another World is Possible

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Novos ares em Davos e Porto Alegre
POR JOAQUÍN ORAMAS

O perigo de agressão militar dos EUA contra o Iraque e a situação provocada pela oposição pró-norte-americana na Venezuela constituem o centro de atenção dos milhares de participantes do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, Brasil e do Fórum Econômico Mundial, que com interesses opostos, coincidem na data: de 23 a 28 de janeiro.

Tanto as dezenas de milhares de dirigentes de partidos, organizações não governamentais e de outros setores reunidos na sulista cidade brasileira, quanto os empresários representantes de grandes corporações que participam do encontro no centro turístico das montanhas suíças, examinarão a situação econômica internacional de um ponto de vista fundamental: Haverá guerra no Oriente Médio nas próximas semanas? Como enfrentar a situação que ocasiona o aumento dos preços do petróleo em face das conseqüências de ameaças da administração de Bush contra o país árabe, e da campanha de desestabilização dos opositores ao governo venezuelano?

Davos e Porto Alegre serão cenários coincidentes, nesta ocasião, em que a séria crise da economia mundial se agrava perigosamente, ainda mais ante o derrubamento das Torres Gêmeas.

Os capitalistas reunidos nas montanhas suíças não poderão ocultar a realidade depois do colapso da economia argentina, dos consecutivos onze cortes da taxa de juros da Reserva Federal dos Estados Unidos e diante da situação alarmante do Japão, cuja economia está estagnada há vários anos.

Estes não serão os únicos temas em ambos os encontros, mas os perigos que significam a guerra e o petróleo são tão graves e universais, que as conseqüências negativas para nós todos obrigará a fazer um exame mais profundo deles.

Se os grandes capitalistas falam em Davos de mercado e de investimentos, também terão de se referir aos danos e à desconfiança nos investidores e em outros que também intervém nesses negócios.

Na reunião dos poderosos, os Estados Unidos reiteram a recusa oficial à redução de suas reservas estratégicas de petróleo (600 milhões de barris) frente à crise de fornecimento desse recurso e à alta dos preços. Contudo, a desconfiança se mantém.

Enquanto isso, as vozes dos participantes no Foro da cidade brasileira se levantam exigindo medidas para que milhões de pessoas possam receber os alimentos necessários.

A fome e a pobreza, inimigos principais da América Latina e do Caribe, são atualmente conseqüências de políticas locais erradas, sucessivas crises econômicas internacionais e obstáculos que os EUA impõem às exportações agrícolas. Estes fenômenos constituem as causas principais que provocam pobreza de 65% dos 516 milhões de habitantes da região, indigência de 38% e desnutrição de 11%.

Mas, estes dados, extraídos do Informe da Cúpula Mundial da Alimentação, efetuada no passado mês de junho, em Roma, excluem o agravamento da fome na América Latina, região afetada nos últimos anos por vários fenômenos naturais, terremotos, furacões, secas e pela corrupção política e administrativa dos respectivos governos.

Somam-se aos países que hoje enfrentam situações econômicas graves, o Haiti, onde a fome afeta 62% da população, a Colômbia e o Peru, onde a fome abrange uma em cada quatro pessoas, e o México, onde 40% dos 100 milhões de habitantes sofrem algum grau de desnutrição.

O continente latino-americano e caribenho já não é destino prioritário de ajuda internacional, ao terminar o ano passado, com cinco anos de baixo crescimento com a queda do Produto Interno Bruto a 0,1%; com elevada inflação; 9,1% de desemprego e 50% dos trabalhadores ativos com empregos precários.

Também não existem projetos sustentáveis regionais nem governamentais para enfrentar este flagelo, à exceção do Programa Fome Zero do presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, primeira medida do governo após sua posse, em 1º de janeiro passado.

O plano anunciado por Lula é completamente novo na América Latina, pois tem como objetivo não só erradicar a fome no país, mas também pôr em prática programas sustentáveis visando à criação de empregos e áreas produtivas para benefício dos pobres.

A meta do programa Fome Zero significa conseguir, nos próximos quatro anos, estabelecer três refeições diárias para 22 milhões de pessoas atingidas pela fome. Quantidade que, segundo o independente Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar, equivale a 26% da população desse país.

Para este projeto foram traçadas 21 linhas de ação, que combinam políticas estruturais, como a reforma agrária e a ampliação da previdência social a trabalhadores informais, com outras medidas específicas e locais como a distribuição de vales que podem ser trocados por alimentos, e o aumento do lanche escolar.

O presidente brasileiro será o único governante que participará dos dois importantes eventos internacionais que terão lugar em Porto Alegre e Davos.

No primeiro, participará da inauguração do Fórum Social, onde se calcula participem 100 mil pessoas, entre elas, dirigentes sindicais, representantes de etnias, de organizações não governamentais e de partidos políticos, entre outros. Em Porto Alegre, se examinarão assuntos tais como a situação criada pela pobreza na região bem como os avanços na luta contra a globalização neoliberal e o desenvolvimento da consciência em defesa do meio ambiente e contra as campanhas belicistas que os EUA implementam pretextando a luta contra o terrorismo, entre outros.

Um ponto essencial na agenda de Porto Alegre será a situação criada pela pobreza na região, como expressam diferentes organismos internacionais, entre eles, o Programa Mundial de Alimentos (PMA), que afirma que , 72 milhões de latino-americanos e caribenhos em 2002 viviam na extrema pobreza e sofriam as seqüelas da fome, situação que piorará neste ano.

Entre os importantes temas que os experts julgam prioritários para serem debatidos no Fórum Social, sobressai a ameaça da fome que paira sobre mais de 200 milhões de habitantes da região, vulneráveis ao agravamento da economia ou a novos desastres naturais.

Segundo relatórios da Cúpula Mundial da Alimentação, a população faminta na América Central cresceu na última década de 17 para 19% e no Caribe de 26 para 28%. Aproximadamente 200 crianças latino-americanas morreram nos últimos 18 meses devido à falta de alimentos, que afeta mais de 8 milhões de pessoas nas áreas mais pobres e secas da região.

Contrariamente, a América Latina e o Caribe concentram 25% da terra cultivável do planeta; 23% do gado e 30% da reserva de água potável, segundo especialistas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Tais recursos, através do desenvolvimento sustentável, significam maior quantidade de alimentos para toda a população da região, bem como a obtenção de divisas e recursos para o desenvolvimento de outros setores econômicos, afirma a FAO.

A Argentina, por exemplo, produz alimentos para 300 milhões de pessoas, 12 vezes a população do país. Contudo, nas comunidades mais pobres, a fome é crônica e a situação se tornou mais grave e se alastrou a outros setores sociais após a débâcle de dezembro de 2001.

O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) indicou que nessa nação, mais de 52% dos 37 milhões de argentinos são pobres e 26% indigentes, quer dizer, sem renda mínima para as despesas de sobrevivência.

Os casos mais dramáticos enxergam-se na população infantil. Segundo dados do Indec, de 2001, na Argentina morrem anualmente 11 mil crianças menores de um ano. Contudo, 6 mil delas poderiam ser salvas, mas morrem por causa de doenças provocadas pela extrema pobreza, como a desnutrição e as diarréias.

A situação só é comparável com as conseqüências de «uma guerra ou um desastre natural», apesar de o país não ter sofrido nenhum desses males, afirmou o sociólogo Pablo Vinocur, consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

A profunda crise argentina atingiu seu vizinho Uruguai, que, apesar de ser também produtor por excelência de alimentos, hoje tem sérios problemas de fome na população infantil, vivendo 60% dela na pobreza.

Experts revelaram que organizações não governamentais (ONGs) e religiosas, encarregadas de centros de alimentação e subsidiadas por organismos internacionais, aumentaram quatro vezes nos últimos seis anos nesse país. Daí que afirmem que em Porto Alegre também se poderão escutar as denúncias das ONGs da nação que alguns chegaram a denominar a Suíça da América e que hoje é mais outra vítima do neoliberalismo.

P  O  R  T  O     A  L  E  G  R  E     2  0  0  3
Granma Internacional Digital. Havana. Cuba

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