F  Ó  R  U  M      S  O  C  I  A  L      M  U  N  D  I  A  L

PORTO ALEGRE 2003  -  BRASIL          Havana. 28 de Janeiro de 2003  

 Outro Mundo é Possível - Otro Mundo es Posible - Another World is Possible

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Esperança em Porto Alegre,
repressão em Davos
POR JOAQUÍN ORAMAS

UM marcado contraste apresentam dois acontecimentos que suscitam ampla repercussão internacional, o Fórum Social de Porto Alegre e o Econômico de Davos. O primeiro se desenvolve alegre e vibrantemente, cheio de esperanças; o outro, sombreado pela repressão policial contra milhares de manifestantes que denunciavam as ameaças de guerra e as conseqüências do neoliberalismo globalizador, desenham a imagem de um mundo convulso.

No Fórum Social, com mais de 100 mil participantes representando 120 países, se analisaram os problemas mais urgentes que pesam sobre a maioria dos habitantes da Terra e no centro dos debates, o rechaço às ameaças de guerra e à política neoliberal.

Um assunto reiterado em diversos painéis e seminários é o da dívida externa e a carga do pagamento desse débito e de seus serviços por parte dos países do Terceiro Mundo, alguns dos quais devem investir até quase 40% de seus orçamentos. O presidente da Venezuela pôs como exemplo seu próprio país, ao revelar no evento que já pagou US$ 20 bilhões por essa dívida que foram roubados por governantes anteriores à Revolução Bolivariana e no entanto, continuam devendo os mesmos US$ 23 bilhões de antes.

«Por cada dólar que os países pobres recebem de ajuda têm que pagar seis de dívida externa. É impossível que saiamos da pobreza com esses mecanismos perversos de transferências de capitais dos mais pobres aos mais ricos», sentenciou Chávez, que concorda com Fidel Castro de que se trata de uma dívida eterna.

O uso da mídia, deturpando a verdade para servir interesses privados e o fascismo foi outra praga fustigada em Porto Alegre. O professor francês Ignácio Ramonet colocou a necessidade de elaborar o que denominou uma ecologia da informação. Lançou uma convocação para exigir dos grandes grupos que dominam a mídia no mundo o respeito elementar da verdade.

Anunciou a criação no evento do Observatório Internacional da Mídia e advertiu em seguida que estes saibam que se eles pertencem à globalização liberal, nós pertencemos ao Movimento Social Mundial.

Outras preocupações examinadas no Fórum centralizaram-se na exigência da aplicação dos acordos da Cúpula de Joanesburgo pelo desenvolvimento sustentável e em defesa do meio ambiente. As críticas também se referiram ao fato de que quando o mundo está entrando no século 21 com vertiginoso desenvolvimento científico e técnico, os principais consumidores capitalistas deterioram a natureza, somando-se o fato de que mais de 500 milhões de pessoas carecem de acesso à educação, centenas de milhões não têm um teto onde abrigar-se e mais de 2 bilhões não recebem os serviços de atendimento médico, abastecimento sistemático de água potável e de eletricidade.

O painel onde discutiram esses temas exigiu a realização de ações concretas para fazer valer os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais das pessoas como única via para que se respeitem os direitos civis e políticos.

Na mesa-redonda sobre os movimentos sociais e partidos políticos, Gladys Marín, representante do Partido Comunista do Chile, reiterou o apoio ao governo e ao povo venezuelanos e recordou que os fascistas lhes estão aplicando a mesma tática que usaram no Chile contra o presidente Salvador Allende que culminou com sua morte e o assassinato de milhares de chilenos. Exortou à resistência, unidos e vigilantes e decididos a combater para derrotar a reação e o fascismo.

EM DAVOS TAMBÉM SE PREOCUPAM COM A GUERRA

Apesar de que a polícia da Suíça tenha mobilizado milhares de policiais, helicópteros e aviões para garantir a tranqüilidade dos poderosos reunidos na estação turística de Davos, milhares de manifestantes conseguiram chegar perto, mas foram atacados pela força pública com o saldo de vários feridos. Outras centenas de opositores provenientes de diversos países realizaram demonstrações em Berna, capital da Suíça.

Enquanto isso, no Fórum Econômico de Davos, a tensão que rodeia o tema Iraque gerou profundas críticas, situação que repercutiu nos mercados financeiros no fim de semana. Durante o intercâmbio entre empresários e líderes políticos dos EUA e seus aliados-chaves da Europa afloraram as discrepâncias sobre as ameaças de guerra contra o país árabe, reiteradas nesse fórum pelo secretário de Estado norte-americano, Colin Powell.

Ao intervir na reunião, o veterano diretor de planejamento de política do Departamento de Estado dos EUA, Richard Hass, reconheceu que Washington ainda deve apresentar «provas convincentes» para realizar uma ação militar contra Bagdá, depois que a Rússia e a China se uniram à França e à Alemanha na oposição a uma contenda apressada. Hass insistiu que a guerra era evitável apesar da enorme concentração de tropas estadunidenses e britânicas no golfo Pérsico. Assegurou que «não temos passado do ponto de não-retorno», mas suas afirmações não causaram o efeito que esperava.

Contudo, acrescentou que «Washington estava convencido de que o processo de inspeção de armas era imperfeito, devido a que o Iraque retinha suposta informação sobre seu inventário de materiais para armas químicas e biológicas».

O deteriorado estado das relações internacionais e o mal-estar e a política exterior norte-americana foram tópicos fundamentais de análise e discussão para uns dois mil banqueiros, representantes de transnacionais e de outros setores da economia, presentes no encontro. Eles não puderam evitar o sombrio ambiente que reflete a incerteza econômica mundial, os escândalos corporativos nos EUA e a anunciada ameaça de uma guerra que traria desastrosas conseqüências para todos, mesmo para os mais poderosos economicamente.

Declarou que o relatório dos especialistas ao Conselho de Segurança «não deveria provocar uma guerra».

«Não estamos convencidos. Onde estão as justificativas para uma guerra?» Perguntou num debate apresentado pela televisão da BBC de Londres no fórum. Por sua vez, o presidente do Parlamento Europeu, Pat Cox, disse que o poder dos EUA requer a força da lei internacional e que as Nações Unidas não podem ser utilizadas como um simples carimbo de borracha. «A razão pela qual temos observado alguma fratura do consenso é que mais e mais membros da opinião pública ainda devem ser convencidos. Precisamos de evidências mais claras», disse Cox.

Os crescentes desacordos entre Washington e seus aliados da Europa provocaram no dia 24 a queda do dólar e levaram os investidores globais a buscar segurança para seu dinheiro, para o que acudiram a bônus de governos europeus, ouro, petróleo e ao franco suíço, produtos que se fortaleceram durante a jornada.

Analistas políticos do encontro de Davos afirmaram que as relações entre os EUA e a Europa estavam no mais baixo nível das últimas décadas, com demonstrações mútuas de profunda exasperação. Advertiram que, enquanto Washington considera que a Europa se nega a reconhecer e confrontar seus pronunciamentos sobre ameaças à segurança, a maioria das nações européias afirma que os EUA querem impor suas próprias regras, ignorando os aliados e buscando soluções militares aos problemas globais.

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Granma Internacional Digital. Havana. Cuba

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