Aos países pobres se lhes prometeu
ajuda para o denvolvimento e que o abismo entre
ricos e pobres reducir-se-ia progressivamente; até
chegou a se prometer que o montante atingiria o 0,7
por cento do chamado PIB dos econômicamente
desenvolvidos, cifra que de ser assim, hoje seria de
não menos de 175 bilhões de dólares por ano.
O que recebeu o Terceiro Mundo como
ajuda oficial para o deseenvolvimento no passado ano
2003 foi 54 bilhões de dólares. Esse mesmo ano os
pobres pagaram aos ricos 436 bilhões por serviço da
dívida. O mais rico deles, os Estados Unidos da
América é quem menos cumpriu a meta trazada, ao
destinarem a essa ajuda apenas 0,1 por cento do seu
PIB. Não são incluidas as enormes somas que lhes
arrebataram como conseqüência do intercâmbio
dessigual.
Adicionalmente, os países ricos
gastam cada ano mais de 300 bilhões de dólares para
pagar subsídios que impedem o acesso das exportações
dos países pobres aos seus mercados.
Por outra parte, é quase impossível
medir o prejuízo causado a esses países pelo tipo de
relações comerciais que através dos caminhos
sinuosos da OMC e os tratados de livre comércio, são
impostos aos países pobres, incapazes de competir
com a sofisticada tecnologia, o monopólio quase
total da propriedade intelectual e os imensos
recursos dos países ricos.
A estas formas de pilhagem
acrescentam-se outras, como a grosseira exploração
da mão-de-obra bararata com maquilas que
chegam e vão à velocidade da luz, a especulação com
as moedas ao ritmo de milhões de milhões de dólares
cada dia, o comércio de armas, a posse de bens do
patrimônio nacional, a invasão cultural e outras
dezenas de ações de pilhagem e roubo impossíveis de
enumerar. Está por estudar, visto que não aparece
nos livros clássicos de economia, a mais brutal
transferência de recursos financeiros dos países
pobres para os países ricos: a fuga de capital, que
é caraterística e obrigatória da ordem econômica
reinante.
O dinheiro de todo o mundo escapa
para os Estados Unidos de América para se proteger
da instabilidade monetária e a febre especulativa
que provoca a própria ordem econômica. Sem esse
presente, que o resto do mundo, nomeadamente os
países pobres, lhe fazem aos Estados Unidos, sua
atual administração não poderia suportar o enorme
déficit fiscal e comercial, que atinge entre ambos
os dois no ano 2004 a não menos de um milhão de
milhões de dólares.
Aguém se atreveria a negar as
conseqüências sociais e humanas da globalização
neoliberal imposta ao mundo?.
. Se há 25 anos quinhentos
milhões de pessoas passavam fome, agora mais de 800
a sofrem.
. Nos países pobres 150 milhões
de crianças nascem com bixo peso, o que aumenta o
risco de morte e o subdesenvolvimento mental e
físico.
. Há 35 milhões de crianças que
não vão à escola.
. A mortalidade infantil em
menores de um ano é 12 vezes superior à dos países
ricos.
. No Terceiro Mundo morrem cada
dia 33 mil crianças por enfermidades curáveis.
. Dois milhões de meninas são
obrigadas a exercer a prostituição.
. 85 por cento da população
mundial formada por países pobres consome apenas 30
por cento da energia, 25 por cento dos metais, e 15
por cento da madeira.
. São milhares de milhões os
analfabetos totais ou funcionais que habitam o
planeta.
Como podem os lideres do
imperialismo e os que partilham com ele a pilhagem
do mundo falar de direitos humanos e mencionar
sequer as palavras liberdade e democracia neste
mundo tão brutalmente explorado?
O que se pratica contra a humanidade
é um crime permanente de genocídio. Cada ano morrem
por falta de alimentos, atendimento médico e
remédios, tantas crianças, mães, adolescentes,
jóvens e adultos salváveis, como as dezenas de
milhões que morreram em qualquer uma das duas
guerras mundiais. Isto acontece todos os dias, a
toda hora, sem que nenhum dos líderes do mundo
desenvolvido e rico dedique a isto nem uma palabra.
Poderá continuar indefinidamente
esta situação? Decididamente não, por razoēs
absolutamente objetivas.
A humanidade, depois de dezenas de
milhares de anos, chegou neste minuto, e quase de
repente, devido ao ritmo acelerado dos últimos 45
anos em que o seu montante mais que se duplicou, a
6.350 milhões de habitantes, que precisam de serem
vestidos, calçados, alimentados, albergados e
educados. A cifra ascenderá quase inevitávelmente a
10 bilhões de pessoas em apenas mais 50 anos. Já
para altura não existirão as reservas de combustível
provadas e prováveis que o planeta demorou 300
milhões de anos em criar. Tarão sido lançadas à
atmosfera,as águas e os solos junto a outros
produtos químicos contaminantes.
O sistema imperialista que hoje
impera, para onde inevitávelmente foi evoluindo a
sociedade capitalista desenvolvida, já chegou a uma
ordem econômica global e neoliberal tão
impiedosamente irracional e injusta, que é
insustentável. Os povos vão-se rebelar em contra
dele. Já começaram a se rebelar. São estúpidos os
que afirmam que isto é fruto de partidos, ideologias
ou de agentes subversivos e instabilizadores de Cuba
e Venezuela. Entre outras coisas esta evolução
trouxe consigo, de maneira inevitável dentro de
bases e normas que regem o sistema imperante, as
chamadas sociedades de consumo. Nelas, suas
tendências esbanjadoras e irresponsáveis envenenaram
as mentes de grande número de pessoas no mundo, as
que no meio de uma ignorância política e econômica
generalizada são manipuladas pela publicidade
comercial e política através de fabulosos mídia que
a ciência criou.
Estas não tem sido as condições mais
propícias para o desenvolvimento, nos países ricos e
poderosos, de líderes capazes, responsáveis e
dotados dos conhecimentos e princípios políticos e
éticos que um mundo tão extremamente complexo requer.
Não é necessário culpá-los, porque eles mesmos foram
frutos e ao mesmo tempo cegos instrumentos de aquela
evolução. Serão capazes de tratar com
responsabilidade as situações políticas sumamente
complicadas que em número crescente surgem no
mundo?.
Em breve vão fazer 60 anos do dia em
que estourou sobre Hiroshima a primeira bomba
nuclear. Hoje existem no mundo dezenas de milhares
dessas armas, que são dezenas de vezes mais
poderosas e precisas. Continuam-se prodizindo e
aperfeiçoando. Até no esspaço se programam bases de
projécteis
nucleares. Surgem novos sistemas de
mortíferos e sofisticados armamentos.
Pela primeira vez na história o
homem teria criado a capacidade técnica para sua
total autodestrução. No entanto, não tem sido capaz
de criar um mínimo de garantias para a segurança e
integridade de todos os países por igual. Elaboram-se,
e inclusive são aplicadas teorias relativas ao uso
preventivo e por surpresa das armas mais
sofisticadas " em qualquer escuro canto do mundo ",
" em 60 ou maiss países ", que fazem
pálida a barbárie proclamada nos dias tenebrosos do
nazismo. Já temos sido testemunhas de guerras de
conquista e de sádicos métodos de tortura que
recordam as imagens divulgadas nos dias finais da
Segunda Guerra Mundial.
O pretígio das Nações Unidas está
sendo socavado até os alicerces. Longe de se
aperfeiçoar e democratizar, a instituição foi
ficando como um instrumento que a superpotência e os
seus aliados pretendem usar únicamante para
coonestar aventuras bélicas e espantosos crimes
contra os direitos mais sagrados dos povos.
Não se trata de fantasias nem de
produtos da imaginação. É muito real o fato de que,
em apenas meio século, surgiram dois grandes e
mortíferos perigos para a própria sobrevivência da
espécie: aquele que sai do desenvolvimento
tecnológico das armas e aquele que vem da destruição
sistemática e acelerada das condições naturais para
a vida no planeta.
Na alternativa a que tem sido
arrastada pelo sistema, não há otra posibilidade
para a humanidade: ou muda a atual situação mundial
ou a espécie corre o risco real de extinção. Para
entendê-lo não tem que se cientista nem perito em
matemáticas; é suficiente com a aritmética que
recebem as crianças no ensino primário.
Os povos serão ingovernáveis. Não
existem métodos repressivos, torturas,
desaparecimentos nem assassínios em massa que possam
impedi-lo. E na luta pela sobrevivência, a dos seus
filhos e os filhos dos seus filhos, estarão nem só
os famintos do Terceiro Mundo; estarão igualmente
todas as pessoas conscientes do mundo rico, quer
trabalhadores manuais ou intelectuais.
Da crise inevitável, e muito mais
cedo do que tarde, sairão pensadores,
guias,organizações e políticas da mais diversa
índole que farão o máximo esforço por preservarem a
espécie. Todas as águas numa só direção vão se
juntar para varrer os obstáculos.
Plantemos idéias, e todas as armas
que esta bárbara civilização criou vão sobrar;
plantemos idéias, e a destruição irremediável do
nosso meio natural de vida poderá impedir-se.
Caberia se perguntar, se já não é
tarde demais. Sou otimista, digo que não, e tenho a
esperança de que um mundo melhor é possível.

Fidel Castro Ruz
Presidente da República de Cuba
Havana,13 de junho de 2004