Para curar as
feridas da alma
Leticia Martínez
Hernández e foto de Juvenal Balán, enviados
especiais
PORTO PRÍNCIPE, Haiti. — Cuba assaltou, em 10 de
março, a Praça Champ de Mars, a mesma que há dois
meses acolhe milhares de rostos tristes, agoniados.
Foi literalmente um assalto, mas daqueles que apenas
sabem fazer os que teimam em curar as feridas da
alma. Um assalto à cubana, com rumba de Santiago,
palhaços, acrobacias, magias, pincéis, cores, danças,
pernas de pau, cantos... O capitão da invasão: Kcho.
Os conquistadores: os membros da brigada Marta
Machado. O alvo? Centenas de haitianos que naquela
manhã esqueceram a tragédia para sorrirem com Cuba.
|

Das tendas e
das favelas maltratadas os artistas cubanos
foram tirando a gente. |
No relógio eram quase 10h. Tudo estava pronto nos
jardins do desmoronado Palácio Nacional: a polícia
haitiana formada, as cercas para delimitar o espaço
da função. Mas como a arte não tem esquemas e muito
menos os ânimos de Kcho, a Brigada da alegria, longe
de qualquer medo, entrou por onde menos a esperavam.
Das tendas e das favelas maltratadas foram os
artistas cubanos tirando a gente, que do assombro
passaram ao deleite quando a felicidade invadiu a
praça.
Kensí foi palhaço nesse dia pela primeira vez. As
cores no nariz e nas bochechas mudaram a tristeza
desta criança, apagaram a má lembrança dum tremor
que a deixou sem casa. Como ele, centenas de
crianças, e também adultos, gozaram com os artistas
em pernas de pau quando, por debaixo das pernas bem
longas, fizeram passar uma fila barulhenta, com o
palhaço Cebolinha com sua pistola de água, brincando
a encharcar uns e outros, com o mágico Sixto que
diante do nariz de dezenas de pessoas fazia sumir os
gurdes (moeda haitiana) e o baralho; com o grupo
vocal Desandann que os fez gingar até o êxtase com
cantos em crioulo, com os pincéis de Rancaó, com os
braços de Kcho, esse homem que disse ao Granma
sentir-se feliz por ter aprendido que o talento não
vale nada se não se pode partilhar com os outros.
E foi pura arte a que ofereceram os cubanos a
centenas de pessoas na Praça Champ de Mars. Então
não foi raro, sob esse preceito de partilhar o
talento para torná-lo real, ouvir os acordes do
jazzista Yasek Manzano. Aquele jovem que estudou em
Julliard, a prestigiosa universidade nova-iorquina
de música, que se apresentou em palcos de todo o
mundo, e que nesse dia jorrava felicidade neste
Haiti devastado.
Não importa o nome nem os prêmios, diz Yasek. "Sou
mais um que veio pôr o coração, ajudar com o talento
que a vida me deu, com o que aprendi lá em Cuba.
Apaixonei-me com isto. Estive com a Brigada no
Pantanal de Zapata, em Guayabal, na Ilha da
Juventude... e Kcho sabe que pode contar comigo".
Kcho diz que desde o próprio dia 12 e janeiro o
telefone da casa dele não parava de tocar. "Os
brigadistas, os amigos, ligavam-me para saber o que
íamos fazer, mas entendemos que ainda não era o
momento de vir. Era o tempo dos médicos, de curar,
de operar. Mas chegou nosso dia, e cá estamos para
curar quanto antes as feridas da alma, senão o
futuro deste país estará comprometido para sempre.
Quando vou embora? Não sei, acabo de colocar um pé
neste país e vim para ajudar".
No dia anterior virou uma festa a praça de tantos
amontoados. Tudo parecia irreal, uma miragem da
felicidade que desejamos para o Haiti. Até a cerca
que ampara o Palácio Nacional, e que lembra a linha
entre o luxo e a miséria, luziu bonita quando mãos
cubanas penduraram nela enormes desenhos feitos
pelas crianças cubanas prejudicadas também pelas
catástrofes naturais. Um halo de fé, de esperança,
de sorrisos, cobriu em 10 de março a Champ de Mars.