Só basta com
um exemplo
Elsa Claro
• A inícios de março se reuniu em
Barcelona o Tribunal criado pelo filósofo Bertrand
Russell e que leva seu nome, constituído
originalmente para julgar os crimes cometidos no
Vietnã, e depois na América Latina e noutros
lamentáveis recantos do planeta. Nesta oportunidade,
emitiu um ditame sobre a União Europeia, à qual
considera culpada de não ter influenciado Israel,
para impedir que este país empreendesse a Operação
Chumbo Fundido, que provocou a morte de 1.412
palestinos e arrasou a escassa infraestrutura da
Faixa de Gaza, entre dezembro de 2008 e janeiro de
2009.
O testemunho da eurodeputada belga
Véronique de Keyser, membro do Partido Socialista
Belga, serviu para comprovar que a Comissão Europeia
foi informada com antecedência do plano de
bombardear Gaza, pois a ex-chanceler judia Tzipi
Livni comunicou pessoalmente as intenções bélicas de
Telaviv, durante uma reunião com a Comissão dos
Assuntos Exteriores da UE, organismo que longe de
colocar obstáculos à operação bélica, acedeu então a
aprofundar os nexos com Israel. Portanto, essa Corte
moral, formada por personalidades de tendências e
credos muito diversos, considera que os 27 são
cúmplices da chacina.
Esse resultado faz supor
inevitavelmente que se os países que hoje integram a
União Europeia tivessem adotado uma Posição Comum
contra o golpe de Estado de Pinochet no Chile dos
anos 70 do século passado, ou no referido ao resto
das ditaduras do cone sul americano, é possível que
esses processos ilegítimos, sangrentos,
desumanizados, não tivessem durado tanto.
Exceptuando a Suécia de Olof Palme,
os deputados de rançosa linhagem e os muito
democráticos deputados do Parlamento, que reúne
representantes do Pacto Comunitário em bancadas
ideológicas de diferente matizes, não se opuseram
com a força suficiente à barbárie autorizada pelos
Estados Unidos naqueles países. Não são fatos
esquecidos, pois os acontecimentos em Honduras, no
passado ano, provam que a duplicidade ou a fraqueza
moral, vêm à tona, com todo desenfado, entre aqueles
que empregam um padrão duvidoso de justiça contra os
que colocam na mira, por decisão própria ou fazendo
coro ao chefe imediato (leia-se os EUA).
Um primeiro impulso os levou a
condenarem o rapto de Zelaya e a usurpação de seu
cargo, mas não tardaram em seguir os passos
orientados por Hillary Clinton e pelos
ultraconservadores dos EUA, procedendo a levantarem
as tímidas sanções anunciadas. Repetiam a atitude
permissiva que tiveram a respeito da Argentina,
Uruguai, Chile ou das nações centro-americanas, nas
quais houve desaparecidos, torturados e mortos,
inclusive norte-americanos e de nacionalidade
europeia, nos anos 70-80.
Salvo algum que outro julgamento
promovido quase sempre por familiares e de maneira
bilateral, os usurpadores que tiraram pela força
governantes eleitos nas urnas, sob os padrões da
sacrossanta democracia representativa ocidental, não
foram condenados nem foram repudiados (não com o
devido empenho) os inescusáveis fatos que ainda
depois de três decênios, continuam afetando milhares
de famílias, pois algumas recobraram ao menos os
netos, mas muitas nem sequer puderam sepultar os
cadáveres jogados ao mar ou sepultados em valas
comuns, ao melhor estilo nazista. Algo que hoje,
certamente, foi descoberto na Colômbia, admitido
pelos próprios paramilitares assassinos, sem que
ninguém na velha Europsa se escandalize.
"Num estudo realizado em 1980, o
latino-americanista Lars Schoultz descobriu que a
ajuda exterior estadunidense "tendeu a fluir em
forma desproporcionada a governos latino-americanos
que torturam seus cidadãos… aos maiores violadores
dos direitos humanos fundamentais no hemisfério".
Estudos mais amplos de Edward Herman acharam a mesma
correlação, e também sugeriram uma explicação. Não é
surpreendente que a ajuda estadunidense tenda a
correlacionar-se com um clima favorável aos negócios,
que comumente melhora com o assassinato de
organizadores de operários e camponeses e ativistas
em prol dos direitos humanos e outras ações
semelhantes, o qual produz uma segunda correlação
entre a ajuda e as monumentais violações aos
direitos humanos", lembrava Noam Chomsky num artigo,
onde também apontou que "… a tortura foi o menor de
muitos crimes de agressão, terror, subversão e
estrangulamento econômico que escureceu a história
estadunidense, como ocorre também com outras grandes
potências".
Exemplificando sua formulação, o
famoso professor do Instituto de Tecnologia de
Massachussets assegura que, nos últimos 60 anos, a
CIA utilizou até US$1 bilhão anual para suas
censuráveis fórmulas de conseguir informação,
mediante formas de infringir dor insuportável às
vítimas. Esses métodos foram empregados
preferentemente no exterior e as instalações mais
famosas para tais práticas foram as prisões secretas
instauradas por George Bush Junior na Europa e
toleradas por seus governantes.
Na edição de 2 de novembro de 2005,
o The Washington Post foi o primeiro a
informar que a Agência tinha indivíduos suspeitos de
pertencerem a Al-Qaeda em vários países do leste
europeu, em países asiáticos e do Oriente Médio.
Esses "locais negros", como foram qualificados na
época, surgiram após o 11 de setembro de 2001 e as
escalas em vários países de aeronaves
norte-americanas levando esses indivíduos privados
de todo direito, chamaram a atenção de organizações
cívicas europeias, as quais denunciaram isso.
Quando o assunto adquiriu proporções
escandalosas, o Conselho da Europa nomeou o senador
suíço Richard Marty à frente de uma comissão
investigadora. O primeiro relatório foi tornado
público nove meses depois (junho de 2006) no qual se
expunha que 14 nações europeias, incluindo a Suíça,
estavam envolvidas ,de maneira ativa ou passiva, na
detenção ou transferência desses réus. Um segundo e
posterior ditame fundamentou exaustivamente o antes
comprovado.
Nos fins de 2007, Bush defendeu os
métodos da CIA, tal como fizera um ano antes Richard
Cheney e agora acaba de sustentar Karl Rove,
eminência parda da administração republicana e um
dos artífices da rede de sequestros, torturas e
assassinatos, justificada a partir dos atentados ao
World Trade Center, numas declarações à BBC, em
março de 2010. Um indivíduo capaz de insistir agora
acerca da utilidade das torturas e dizer que sente
orgulho de ter criado um marco legal para esse
indigno recurso.
Os antecedentes acerca da aplicação
de punições psicológicas e físicas são mais antigos,
mas remontam ao início dos anos 50, etapa na qual se
sistematizou. De acordo com estudos autorizados, o
que se conheceu através das fotos tomadas em Abu
Ghraib, depois da invasão ao Iraque em 2003, vinha
sendo praticado antes noutros lugares. Na América
Latina, por exemplo. Em nenhum caso, a Europa reagiu
com vigor perante essas perversões.
Parece que o pesquisador Allan Nairn,
a quem diversas personalidades norte-americanas têm
por sério, objetivo e valente, teve entre suas
apreciações esses antecedentes quando disse: "O
que a (proibição da tortura) de Obama cancela é essa
pequena percentagem de tortura que hoje realizam
estadunidenses, mas conserva o conjunto esmagador da
tortura como sistema, levado a cabo por estrangeiros,
sob patrocínio norte-americano".
Referia-se tanto àqueles treinados
em locais como a Escola das Américas ou similares,
por gendarmes treinados em países ocupados ou talvez
através de mercenários que, sob o nome de
empreiteiros, se encarregam de tarefas tão sujas
quanto martirizarem seres humanos impossibilitados
de se defender.
Barack Obama tinha suspendido a
aplicação das torturas, pouco depois de assumir a
presidência, mas não puniu os culpados e com isso
deixou vigentes os esquemas que continuaram
funcionando dentro ou fora de seu país.
Em 10 de março passado, em Genebra,
o relator especial da ONU para a tortura, Manfred
Nowak, criticou o presidente norte-americano,
acusando-o de não ter investigado as denúncias sobre
torturas, sob o mandato Bush, apesar de que os EUA,
como assinantes da Convenção Internacional
promulgada sobre torturas, têm responsabilidades
legais que os obrigam a uma pesquisa exaustiva e ao
julgamento dos culpados.
O fato de que Karl Rove possa dizer,
sorridente e sarcástico, que não importa se não
foram encontradas armas de destruição em massa no
Iraque e defenda, com veemência assassina, o uso do
martírio como recurso para obter revelações
questionáveis, indica que Nowak está certo.
A RANÇA EUROPA
Nowak é um advogado austríaco e como
relator especial das Nações Unidas visitou diversos
cárceres do mundo, inclusive os de alguns altos
países. No ano passado, disse à imprensa que várias
nações se negaram a que ele examinasse as
penitenciárias. De todas as formas, soube que
existem uns 10 milhões de pessoas internadas em
circunstâncias inaceitáveis. "A maioria deles está
em condições que violam a dignidade humana",
assegurou. Um milhão do total citado, eram crianças
de entre 9 e 10 anos, postos com adultos, sujeitos a
diversos abusos ou a surras dos próprios carcereiros,
como método para "discipliná-los". Organizações
internacionais confirmam e referem-se ao
confinamento dos imigrantes, pois a União Europeia
tem 180 prisões para encerrar estrangeiros
irregulares, além daqueles que estão nos cárceres
ordinários.
Os problemas das prisões na Europa
são muitos, conclui-se noutro relatório que dá conta
da superpopulação e da falta de higiene, somadas ao
pessoal insuficiente e à insegurança, que inclui
agressões sexuais, temas não tocados pela imprensa,
exceto por meios alternativos. Estas irregularidades
provocaram que em 2008 várias centenas de
funcionários de prisões se manifestassem perante o
prédio do Conselho de Ministros em Bruxelas,
protestando por essas anomalias que acarretam também
uma alta taxa de suicídios. Suicidar-se em prisão
ocorre, sobretudo, no Reino Unido, na Noruega, na
França e na Eslovênia, precisa o estudo.
O exposto é deplorável e também o
que reflete um dossiê da Anistia Internacional. "O
papel desempenhado por alguns Estados europeus nas
entregas e detenções secretas flutuaram entre a
participação ativa e a conivência tácita.
Agentes europeus detiveram ou encerraram suspeitos e
os deixaram sob custódia dos Estados Unidos, sem que
tenha existido um processo judicial. Participaram
diretamente em detenções ilegais, num caso ajudando
agentes estadunidenses a sequestrarem um suspeito em
plena rua, na Itália antes de sua entrega ao Egito.
A Agência Central de Inteligência (CIA)
estadunidense utilizou livremente aeroportos
europeus para operar aviões que transportaram
vítimas de entregas extraordinárias, encapuzadas e
acorrentadas, a fim de submetê-las a interrogatórios
e maus tratos enquanto permaneciam encerradas em
secreto e em regime de incomunicação em locais do
mundo, inclusive na Europa. Agentes de Estados
europeus aproveitaram a detenção ilegal de algumas
das pessoas presas para interrogá-las, sem fazer
nada para alertar seus familiares acerca do seu
paradeiro, nem tentar solucionar a detenção ilegal,
que em si própria já constitui uma violação dos
direitos humanos. As investigações realizadas
determinaram que, entre 2003 e 2005, na Europa houve
prisões secretas administradas pela CIA, onde os
detentos eram vítimas de desaparecimento forçado ou
permaneciam encerrados em condições que
constituíam tortura ou outros tratamentos cruéis,
desumanos ou degradantes".
Ponhamos reticências a este relato
que, tristemente, é longo e comprometedor para os
que costumam vestir-se com roupas imaculadas e
emitir informações falsas, apenas por não
concordarem com aquele a quem acusam, apesar de ter
tanto lixo sob o carpete. •